Diga “não” a relacionamentos tóxicos. Conversa fiada | Por Ricardo Schweitzer

Diga “não” a relacionamentos tóxicos

Diga “não” a relacionamentos tóxicos. Conversa fiada. | Artigo por Ricardo Schweitzer, analista independente.

Ninguém mais acredita nessa desculpa! A criação de uma reserva de remuneração de capital na Petrobras, exclusiva para recursos de dividendos, não vai equalizar as distribuições de proventos ao longo do tempo. Na verdade, como defendem alguns conselheiros minoritários, é mais um pretexto para procrastinar dividendos. E eu concordo com eles.

Afinal, reter recursos dentro da empresa, posto que o dinheiro tem valor ao longo do tempo e será mantido em caixa, só vai levar a destruição de valor para os acionistas. E isso não condiz em nada com a política de dividendos que tinha sido anteriormente aprovada.

Para quem não se lembra do episódio, no dia 23 de outubro, fomos surpreendidos com duas notícias em comunicado ao mercado. A primeira, relativa à criação de uma reserva de remuneração de capital e a segunda, sobre a alteração de regras para indicação de membros da alta cúpula, excluindo, entre estas, vedações a indicações políticas.

É claro que o mercado ficou indigesto com esta segunda possibilidade, tanto que no dia as ações da Petrobras (PETR4) chegaram a cair mais de 6% e perder R$ 32,3 bilhões em valor de mercado.

Em um passado não muito distante, a Petrobras já foi alvo de uma verdadeira rapinagem por conta da nomeação de agentes políticos para cargos chave. Essa corrupção endêmica quase levou a petroleira à falência.

Os políticos indicados para os cargos não contavam com competência técnica para as funções, o que deveria ser requisito fundamental para qualquer posição em uma empresa.

Vejo que há um risco elevado desses erros se repetirem, infelizmente. Por mais que os dirigentes tentem tampar o sol com um dedo e tenham vindo à público para se justificar, afirmando que pretendem cumprir a Lei das Estatais, não se enganem queridos investidores: eles sempre buscarão subterfúgios para colocar dentro da Petrobras quem não deveria estar lá.

E por que isso é ruim para os investidores como você? Porque além de afetar a governança corporativa da companhia, os dirigentes estariam tirando a chance de a Petrobras ter profissionais capacitados para ajudar a tornar a empresa eficiente. Perde a companha e perdem os minoritários.

Questão de papel

Os dividendos já vinham há muitos meses sendo colocados contra a parede, mas o investidor e o mercado se apegavam a ilusões de um passado recente, no qual a Petrobras chegou a ser a maior pagadora de proventos do mundo. Como a petroleira ainda estava gerando um bom caixa e até pagando alguns dividendos, eles aguardavam por algumas migalhas daqueles tempos dourados.

Mas como todo relacionamento tóxico, ele vai dando sinais e vai se desgastando aos poucos. E desde que o novo governo assumiu, diversas medidas foram adotadas para reduzir o dinheiro destinado aos acionistas via proventos e elevar o retido pela empresa, seja para investimentos ou outros fins. “A Petrobras não pode ser uma vaca leiteira”, chegou a defender o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. Então, por que você investidor está esperando o contrário?

Os sinais do fim foram diversos: primeiro a mudança na política de preços nos combustíveis, abandonando a paridade internacional, depois o fato que em 2023 a companhia nunca mais anunciou um megadividendo. Em julho, finalmente, a tão esperada nova política de dividendos da Petrobras reduziu a premissa de distribuir 60% do fluxo de caixa livre para 45% do fluxo de caixa livre em proventos, com espaço para dividendos extraordinários desde que não interfira na saúde financeira da petroleira.

E finalmente a proposta de uma reserva de remuneração de capital, que embora garantiria a efetividade de pagamento dos 45% do fluxo de caixa livre obrigatórios, colocaria em risco a distribuição de dividendos extraordinários ou tornaria o processo mais burocrático. Como diriam os conselheiros, estaríamos procrastinando os dividendos extras.

Convenhamos: não faz sentido nenhum guardar recursos para pagar dividendos. Não é o papel da Petrobras fazer gestão do caixa que vai ser destinado aos acionistas. O investidor não deveria acreditar nas propostas da companhia e nem nas justificativas, porque a reserva vai sim comprometer os dividendos extraordinários.

Essas sinalizações constituem um divórcio com a política de dividendos anunciada em julho e que esteve em voga até então. O que o investidor tem agora para ser usado como referência sobre a remuneração do acionista?

A aprovação destas duas mudanças- reserva de capital e indicação de membros da alta cúpula- ainda será deliberada em Assembleia Geral Extraordinária no dia 30 de novembro. Para participar, de forma presencial ou digital, os acionistas precisam se credenciar até as 14h do dia 28 de novembro neste link.

Independentemente do desenlace desta história, para mim a história com Petrobras está encerrada e. se eu puder deixar um conselho, fique longe de Petrobras! Nem os dividendos nem o potencial de alta justificam o risco que decisões de gestão catastróficas podem trazer à empresa. Quem avisa, amigo é.

Se você é daqueles que gosta muito do setor de petróleo, no Brasil temos algumas petroleiras privadas bem geridas e com objetivos alinhados com os acionistas. Recentemente falei como duas delas poderiam se beneficiar do cenário geopolítico que deve favorecer produtoras de petróleo com potencial de crescimento. A alta do petróleo, embora incerta, se tornou uma opcionalidade gratuita que não podemos ignorar.

Ambas as empresas ainda são boas oportunidades de compra. Se você quiser, pode conhecê-las na minha carteira de Small Caps.

E além das opções brasileiras, no exterior existem infinitas alternativas de petroleiras para quem quer se expor ao setor. Então, para que tanto apego com a Petrobras?

O eterno risco estatal

Há outra coisa que o investidor não pode esquecer, por mais que muitas vezes gostaria: o risco de investir em uma empresa estatal sempre vai estar presente. Este é o motivo pelo qual, muitas vezes aquela sua ação do Banco do Brasil, seu papel da Caixa Seguridade ou até sua ação da BB Seguridade estão sempre descontadas diante dos pares privados. Você se questiona “por quê?”, mas ter o governo como sócio, no país em que até o passado é incerto, requer mesmo seus cuidados.

Estatal sempre terá desconto frente a empresa privada, embora o desconto possa ser menor em algumas a depender da percepção de risco de ingerência política.

A Petrobras, infelizmente, sempre foi a estatal mais exposta a esta ingerência, até por ser a única empresa da sua categoria. Não existe outra petroleira estatal. Já nos bancos, por exemplo, além do Banco do Brasil, tem a Caixa Econômica Federal, diminuindo o risco de ingerência.

De toda forma, a percepção de que o ocorrido na Petrobras pode se replicar em outras estatais da Bolsa, sinaliza a visão equivocada que o governo atual tem sobre a função das estatais.

Outro conflito de investir em estatal é a falta de previsibilidade. Estas companhias mudam de dono praticamente cada quatro anos. E raramente estes têm apreço pelas realizações e projetos feitos pela gestão anterior, ou seja, chegam para mudar tudo e não estão alinhados com objetivos de acionistas minoritários. Para investir em companhias com este perfil, todo cuidado é pouco.

E você, ainda acredita que exista uma chance para os dividendos da Petrobras?

Autor: Ricardo Schweitzer, analista independente.

Blog do Grana é a página de conteúdo informativo do aplicativo Grana Capital, para ajudar os investidores com o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF).

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