Ninjas são coisa do passado | Por Ricardo Schweitzer

Ninjas são coisa do passado

Ninjas são coisa do passado. Artigo por Ricardo Schweitzer, analista independente.

Texto Ricardo
Ricardo Schweitzer, analista independente.

Sempre fui desconfiado com essa euforia das empresas fazendo IPOs durante a pandemia, quando os juros estavam baixos. Era possível encontrar no mercado ótimos discursos e promessas de crescimento futuro em empresas techs ou startups, mas nem sempre com os fundamentos necessários para sobreviver aos solavancos da bolsa de valores.

A maioria ficou no vermelho desde então, mas há quem esteja indo mais longe, na tentativa de amenizar os erros e se travestir de “justos” no mercado, quando na verdade o acionista minoritário corre o risco de que lhe passem a perna de novo.

Nestas linhas, eu vou lhe explicar porque a redução de capital da plataforma de serviços GetNinjas (NINJ3) não é tão simples quanto parece e por quais motivos os minoritários deveriam se opor a ela.

Quando uma companhia está “encolhendo” e tem recursos excedentes, ela opta por fazer uma redução do capital social, que é uma forma de retornar aos investidores aquele capital que não está encontrando uso dentro das atividades da empresa. Imagine, por exemplo, que uma empresa vendeu uma unidade de negócios e não tem projetos relevantes capazes de consumir produtivamente os recursos levantados. Provavelmente a empresa fará uma redução de capital para devolver este valor aos acionistas.

A operação de redução é simples: suponhamos que o capital social de uma empresa é 100, mas ela acredita que tem condições de operar com 50, então o patrimônio líquido será reduzido para 50 e esses 50 restantes serão distribuídos aos investidores.

Já me adianto em alertar que nem toda redução de capital é ruim. Temos exemplos positivos na Bolsa, dos quais o mais recente é a Vivo (VIVT3), que recebeu aval da Anatel para fazer uma redução de até R$ 5 bilhões do seu capital social. Mas observe bem as características da Vivo: se trata de uma empresa com enorme geração de caixa, que atua em um setor onde até existem oportunidades de crescimento, mas estas não demandam tanto capital quanto o negócio gera. Uma companhia que, na forma de proventos, já retornou aos seus acionistas o seu valor muitas vezes.

Acho que nem preciso dizer que a situação de GetNinjas é completamente distinta, não é mesmo?

GetNinjas (NINJ3) chegou à Bolsa em maio de 2021, após levantar R$ 482 milhões na sua oferta pública – R$ 321 milhões foram para o caixa da empresa para investir em marketing, fusões e aquisições (M&A) e pessoas e R$ 160 milhões foram para o bolso dos que já eram acionistas antes do IPO.

Na época, a ação foi precificada a R$ 20. De lá para cá, quase 80% de queda.

Dois anos depois, nenhuma aquisição foi feita. Segundo o CEO, Eduardo L’Hotellier, os valuations pedidos eram incompatíveis com retornos sequer superiores à Selic. Os investimentos em marketing, por sua vez, chegaram a ser cortados em até 80% sob a justificativa que os custos estavam se elevando muito.

Se olhamos para a GetNinjas atual ela tem um patrimônio líquido de R$ 280 milhões e um valor de mercado de R$ 222 milhões. A dívida beira zero. E nestes dois anos, a empresa não fez aquisições, não fez investimentos em marketing como tinha prometido aos investidores e – sem lucros – nem sequer pagou dividendos.

Qual foi, então, o motivo então de fazer um IPO? Apenas engordar o caixa em um momento propício de mercado?

Eis que, quando deveria estar trabalhando para garantir um crescimento futuro, a direção da companhia praticamente desistiu e decidiu devolver quase todo o seu capital aos investidores, com uma redução de R$ 223 milhões, equivalente a R$ 4,40 por ação.

Em declarações à mídia, o CEO já manifestou que apenas R$ 60 milhões em caixa seriam suficientes para tocar o negócio e atingir o breakeven – isto é, sair do vermelho – em 2024.

Deixa eu desenhar: temos uma empresa que nem atingiu ainda seu ponto de equilíbrio e está devolvendo dinheiro aos acionistas.

Acontece que estamos falando de R$ 223 milhões, o que me leva a pensar que o IPO foi um erro grosseiro. Propor uma redução de capital, considerando que a empresa não mudou significativamente desde a oferta, implica duas coisas: ou nunca houve uma destinação real para os recursos, ou a empresa não teve capacidade de execução para promover tais destinações.

Sem contar que a GetNinjas não precisava queimar caixa agora e sim buscar novas frentes de negócio para garantir a sua continuidade de mercado. Neste caso, a redução de capital estaria matando qualquer possibilidade de crescimento do negócio, que atualmente já tem dificuldade de ficar no azul.

Autor: Ricardo Schweitzer, analista independente.

Blog do Grana é a página de conteúdo informativo do aplicativo Grana Capital, parceiro da B3 para ajudar os investidores com o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF).

 

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