“Próxima Magalu” ou galpão abandonado?| Por Ricardo Schweitzer

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Artigo de Ricardo Schweitzer

Muito cuidado com as “dicas quentes” de ações desconhecidas. Por Ricardo Schweitzer*

Essa vem do fundo do baú. Não lembro mais que ano era, mas suspeito que isso tenha ocorrido em meados de 2008 ou 2009. 

O mercado passava por um mini-boom de aquisições de empresas (com vistas em reestruturação) e meia dúzia de histórias bem-sucedidas incentivavam tomadores de risco a procurar “a próxima XYZ” – onde XYZ, evidentemente, é uma empresa que ressurgiu das cinzas.

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  • Havia então uma empresinha da qual muito vinha se falando e cujas ações então apresentavam enorme oscilação e volume de negócios. Algumas teses sobre o negócio em si circulavam no mercado. Se, por um lado, algumas eram claramente pura fantasia, outras poderiam fazer algum sentido a depender das reais circunstâncias.

    Com o tempo, a tal empresa começou a atrair atenção de gente um pouco maior. Sabe a ideia de que onde há fumaça, deve haver fogo? Pois é: devia haver jogo ali – dizia o pessoal da velha guarda, que aprendeu na base da porrada como a brincadeira funciona. Os engravatados, por sua vez, recorriam à tal da “hipótese dos mercados eficientes” para sugerir que o movimento dos ativos indicava toda a informação disponível sobre ele.

    Uma breve digressão: o pessoal reluta em perceber que a tal hipótese dos mercados eficientes é uma hipótese. O fato de você eventualmente assumi-la como verdadeira não significa que ela de fato o seja. E, a bem da verdade, as condições do mundo real sequer atendem às premissas do modelo. O cara se depara com custos de transação, encontra oportunidades de arbitragem todo santo dia e assim por diante. Ainda assim, em determinados momentos, assume que há por trás do preço uma mensagem e que esta mensagem é consistente: alguém está sabendo de algo sobre isso que eu não sei.

    Aí vem a tentação: e se, sem saber o que está acontecendo, eu for na onda?

    Conhece “Quadrilha”, do Drummond? Eu ouso profanar a obra do mais ilustre itabirano para ilustrar o que quero dizer:

    João comprou XPTO seguindo Teresa que imitou Raimundo

    que acompanhou Maria que operava na cola de Joaquim que copiava Lili

    que só comprou porque leu, num fórum qualquer, que a ação ia porrar – sem saber (nem querer saber) o porquê.

    Primeiro XPTO subiu muito. Depois, desabou.

    João vendeu no high; Teresa logo abaixo do topo,

    Raimundo ficou no zero-a-zero, Maria foi stopada,

    Joaquim demorou e vendeu com prejola e Lili, que operava alavancada, quebrou.

    O único que se deu bem – fez uma pequena fortuna – foi J. Pinto Fernandes

    que, ao contrário dos demais, estudou XPTO antes de botar ordem na pedra

    e só vendeu sua posição para o controlador, com um senhor prêmio, no fechamento de capital

    menos de um mês depois.

    Voltando à história: tomado pelo espírito investigativo de J. Pinto Fernandes, eu decidi fazer o que, imaginava eu àquela altura, alguém já havia feito. Se alguém sabe de algo sobre a tal empresa, eu vou lá para tentar descobrir. Entrei em contato, agendei uma visita e coloquei o pé na estrada – o que é para mim, cá entre nós, o que há de mais gostoso na vida do analista; ficar no escritório por muito tempo me dava agonia.

    Não vou contar que empresa era, e logo ficará evidente o porquê. Restrinjo-me a dizer que fazia muito frio e pretendia, após a visita, comer um bom galeto. Entendedores entenderão. Ao chegar ao endereço, me chamou imediatamente a atenção algo peculiar: embora se tratasse de uma indústria, tanto a fachada quanto a (falta de) movimentação em frente por pouco não me fizeram passar do número, achando tratar-se de uma acanhada residência. O local parecia abandonado. Mas não: olhando com atenção, uma solitária lâmpada incandescente era a materialização do lampejo de esperança de que houvesse alguma coisa ali.

    Não encontrei campainha: o jeito foi bater palmas em frente ao portão. Primeiro apareceu um cachorro; um minuto depois, abre-se uma porta de madeira da qual sai um sujeito gorducho e baixinho, vestindo um surrado macacão cinza todo sujo de graxa. Aparentava estar na casa dos sessenta e tinha um frondoso bigode grisalho que lhe escondia a boca. Lembra do baixinho da Kaiser? Imagine uma versão mecânico e mais surrado, e temos nosso personagem.

    Apresentei-me e expliquei que tinha uma reunião com o diretor financeiro:

    Ah, o Seu Zé não tá aí não. Mas o senhor tem que voltar na terça que é o dia que eles tão fazendo os pagamentos pra todo mundo, viu?

    Logo ficou evidente que o sujeito achava que eu estava ali para cobrar alguma dívida vencida – e aquela era a resposta padrão a ser dada a todos que, naquela situação, ali aparecessem. Saquei o telefone e, depois de um telefonema, uma senhora igualmente sexagenária surgiu na porta gritando e gesticulando para o baixinho me deixar entrar.

    Minutos depois, já devidamente acomodado no escritório vintage, encontrei o Seu Zé. 

    Recebeu-me calorosamente, e mostrou grande interesse em saber o que me levava lá. Expliquei, então, que o fundo para o qual trabalhava estava prospectando empresas para investir e que queria entender melhor a situação deles. O sujeito se mostrou extremamente surpreso: era evidente que aquilo não acontecia há muito tempo; ninguém havia estado ali nos últimos anos com esse propósito.

    Falou-me então das dificuldades que o negócio principal da companhia vinha enfrentando, em virtude da concorrência com importados, o que havia culminado com a troca de seu controle e a mudança de seu foco para outros segmentos, que pareciam extremamente promissores. 

    Mostrava-se extremamente otimista com as perspectivas de assinar contratos de fornecimento com indústrias importantes, que assegurariam uma intensa utilização de sua capacidade instalada. Temos muito potencial, disse.

    Então me levou para conhecer a fábrica – ou o que havia restado dela.

    Era um imenso pavilhão cujas luzes, em sua grande maioria, estavam apagadas. Lá jaziam máquinas e máquinas cuja obsolescência não seria contestada por absolutamente ninguém, cobertas por uma espessa camada de pó. Em alguns pontos, teias de aranha vertiam do alto como majestosas cortinas de teatro.

    Mas no fundo, lá no fundo, havia um quadrante cujas lâmpadas estavam acesas. Duas máquinas funcionavam, operadas por dois funcionários. Fabricavam precisamente os itens que enfrentavam concorrência mais feroz dos Made in China.

    Então levou-me a uma sala contígua, pouco maior que uma garagem para dois carros, onde estava instalada a linha de produção do principal item da nova linha de produtos que prometia ser a salvação da lavoura. A tal linha consistia de uma mesa, sobre a qual jaziam duas caixas de peças de um lado e outra caixa de produtos montados do outro. No meio, uma moça pegava três peças – duas de uma caixa e uma da outra -, as combinava e depositava no recipiente à sua direita. 

    Àquela altura estava evidente que nenhuma das teses que circulavam no mercado a respeito daquela empresa fazia qualquer sentido. Nenhuma delas guardava qualquer conexão com a realidade. As ações subiam tão somente porque alguém supunha que alguém sabia de algo, em uma cadeia infinita de votos do concurso de beleza keynesiano no qual, no final das contas, ninguém tem opinião acerca de absolutamente nada.

    Saí de lá correndo.

    Não demoraria muito para a tal empresa quebrar. Quem acreditou nas histórias – principalmente na turma que ouve papo de fórum -, ficou com um mico morto na mão. Deu processo na CVM e tudo. A última notícia que tive foi de que a tal fábrica estava sendo transformada em museu.

    “Transformada?”

    Moral da história:

    Primeiro, cuidado, muito cuidado, com a diquinha quente. Já devo ter dito isto dezenas de vezes, mas nunca é demais reforçar. Não importa se a ação sobe: se a única coisa sobre a qual sua tese de investimento se baseia é na expectativa de que haverá alguém ainda mais afoito que você, disposto a comprar aquele mesmo ativo por um preço maior que o de hoje, então você não tem absolutamente nada na mão.

    Segundo, não assuma de antemão que o preço está certo. Muito especialmente em se tratando de ativos de menor visibilidade – e não se engane: não estou falando somente de small caps; talvez até mesmo entre ações relativamente líquidas a informação seja mal distribuída e mal interpretada. A premissa de que o mercado é eficiente é um cacoete acadêmico que simplesmente não encontra suporte na realidade. Como disse certa vez um velho sabichão de Omaha, se os mercados fossem eficientes, eu seria um mendigo sentado na esquina com uma caneca na mão.

    Deste segundo ponto, decorre um terceiro que acho muito importante: a materialização de uma tese de investimento se dá na ocorrência dos fatos que a desencadeiam, não na simples variação do preço das ações. Ação sobe e cai por “n” motivos: cara vende ação de varejista brasileira por causa da Coreia do Norte. Ação de autopeça sobe porque fundo resolveu comprar e afetou a liquidez do papel. XPTO cai porque de acordo com as contas do banco XYZ a participação dela no Índice PQP vai cair 0,5 no próximo mês. Não olhe para a variação do preço como confirmação (ou refutação) de uma tese: resultado aparece em balanço, não em tela de cotação.

    Até a próxima.


    *Ricardo Schweitzer é analista CNPI, consultor CVM e investidor profissional. 

    Twitter: @_rschweitzer, Instagram: @ricardoschweitzer

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