Escolhendo o jogo mais simples | Por Ricardo Schweitzer

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Artigo de Ricardo Schweitzer

Por Ricardo Schweitzer*

Tenho passado as últimas semanas absorto com a temporada de resultados do 3T21. E, francamente, o momento não poderia ser mais propício: quanto mais tempo gasto lendo balanços – que, em sua maioria, apontam melhora substancial das operações das empresas -, menos tempo consumo com as idas e vindas dos preços no homebroker

Minha crescente população de cabelos brancos agradece.

Mas, ainda assim, minhas interações com clientes e com a turma que me acompanha nas redes sociais tem me permitido perceber um elemento de enorme frustração para muitos, que se resume no seguinte: se os resultados estão vindo melhores, por que as ações estão caindo? Afinal de contas, o que guia o preço das ações não são os resultados? A cotação não segue o lucro?

Na verdade não é bem assim. Principalmente no curto prazo.

Em financês básico, o valor de uma ação é o somatório dos fluxos de caixa futuros trazidos a valor presente por uma taxa de desconto que remunera o investimento. E no mundo do Papai Noel, do Coelhinho da Páscoa e dos Mercados Eficientes, valor e preço são a mesma coisa (“o mercado está sempre certo” – haja fé…).

Como consequência, o valor/preço de uma ação sobe em duas circunstâncias: a primeira é quando os fluxos futuros aumentam (ou seja, quando as expectativas sobre os resultados por vir melhoram); a segunda é quando a taxa de desconto cai. E a recíproca é verdadeira: o valor pode diminuir sem que haja qualquer piora das expectativas de resultados futuros, mas simplesmente porque a taxa de desconto aumentou.

Portanto, cotação segue o lucro é metade da história. Mas calma lá.

A tal da taxa de desconto, segundo o mesmo livrinho de finanças, basicamente é composta de uma taxa livre de risco mais um adequado prêmio de risco. Conceitualmente, é bem simples: se eu posso conseguir um retorno de X sem me incomodar (digamos, por exemplo, investindo em títulos públicos de um país que tenha zero risco de calote), então eu só vou arranjar sarna para me coçar investindo em outra coisa se essa outra coisa me remunerar pelo menos X+Y. 

A grande questão é quanto é o “Y justo”. Seja para o mercado como um todo, seja para investir em empresas específicas, que têm riscos específicos. E de novo, o mundo encantado das finanças sugere que os próprios dados de mercado são fontes confiáveis para estimar isso.

Mas adivinha só? No curto prazo, o tal mercado é volátil por “n” razões, pois está permanentemente sujeito a flutuações de expectativas, interações entre compradores e vendedores… enfim. Muito mais se assemelha com uma feira livre do que com aquele punhado de equações bonitas ensinadas em salas de aula tranquilas frequentadas por sujeitos empolados.

E, para o financista teórico, boa parte dessa volatilidade cai na conta da tal variação do “prêmio de risco”: ao assumir que os preços estão sempre certos e enxergar que as variações de expectativas de resultados das empresas não justificam as oscilações, o sujeito precisa encontrar alguma variável para usar de conta de chegada.

Traduzindo: para o financista, a explicação para a queda das ações frente a resultados (e expectativas) melhores é o aumento da taxa de desconto. Em parte, porque a taxa livre de risco (grosseiramente falando, o retorno da renda fixa) está aumentando; em parte porque o prêmio de risco – essa entidade abstrata que amalgama todo o sentimento em relação ao futuro – está aumentando.

O arcabouço teórico é bonito. E tem lá sua utilidade. O problema é que a volatilidade desse componente é alta demais. Mudar estratégias de investimento por conta dele pode não fazer tanto sentido assim se você está no jogo visando um prazo mais longo.

Isto porque, salvo você genuinamente acredite que o Brasil vai para o buraco, muito provavelmente o tal prêmio de risco atual é injustificadamente alto. Muito provavelmente o mercado, bipolar por natureza que é, está exagerando na dose e, eventualmente, devolverá as variáveis a seus lugares “normais”. É só uma cólica em meio às tantas que esse ambiente naturalmente instável já teve e ainda terá.

E se o comportamento dessa variável, no curto prazo, é tão imprevisível assim mas, no longo, as coisas voltam para seu devido lugar, talvez continue fazendo mais sentido gastar tempo e energia focando no outro lado da equação – isto é, nos tais fluxos futuros. Nos resultados das empresas, nas perspectivas de crescimento. 

Sabedor, sim, que em determinados momentos esses mesmos fluxos serão avaliados pelo Deus-Mercado a maior ou a menor por razões que a própria razão desconhece, mas que, a tempo e horas, voltará ao lugar.

Eu fico com o jogo mais simples.

Um abraço e até a próxima. 


*Ricardo Schweitzer é analista CNPI, consultor CVM e investidor profissional. 

Twitter: @_rschweitzer, Instagram: @ricardoschweitzer

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