É hora de vender suas ações e voltar para a renda fixa? | Por Ricardo Schweitzer

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Artigo de Ricardo Schweitzer

Se você está em dúvidas, provavelmente a resposta (para você) é sim. Por Ricardo Schweitzer*


Essa é uma questão que já vinha rondando, mas que ficou especialmente forte depois do banho de sangue das últimas semanas.

De um lado, ruídos políticos se avolumando substancialmente: entre o equacionamento de desafios no front fiscal, o enfrentamento dos efeitos sociais da pandemia – e também, sejamos francos, mirando votos em 2022 -, Executivo e Legislativo trouxeram intranquilidade para os mercados. Lá se foi a ponta longa da curva de juros para as alturas.

De outro, a crescente percepção de que o Banco Central está atrás da curva na política monetária. E toma-lhe 1,25 p.p. a mais de Selic com a promessa de mais por vir.

E é claro, o lembrete de que 2022 é ano de eleição presidencial.

Tudo junto e misturado. E, em um piscar de olhos, lá se viu o investidor brasileiro com LTNs (Tesouro Prefixado) pagando mais de 12% a.a. e NTN-Bs (Tesouro IPCA) oferecendo mais de 5,5% a.a. corrigidos pela inflação. 

Eu tenho certeza de que, se fossem mundos desconectados – isto é, se todos esses movimentos não viessem acompanhados de uma bela dor de barriga na B3 -, não teria tanta gente perguntando. Mas a realidade se impõe.

A questão de ordem do momento, para muita gente, é se está na hora de voltar para a renda fixa.

Pois bem, meu amigo, eu vou te dizer o que acho: se você está com esse pensamento, então muito provavelmente a resposta para você é SIM.

Mas calma. Deixa eu explicar.

1. Se a sua cabeça para ações e renda fixa é “ou uma, ou outra”, só resta a mim deduzir que você ignorou todos que (como eu) sempre insistiram que renda fixa também faz parte do portfólio. Presumo que você tem muita bolsa – ou, pior, que só tem bolsa.

Pois permita-me insistir pela enésima vez: pular de um lado para outro ao som dos sabores do momento não é estratégia de investimento. É jogo. E daqueles nos quais se perde mais do que se ganha.

Eu não preciso voltar pra renda fixa porque nunca saí dela. Boa parte do meu patrimônio já estava lá – e lá vai continuar. Da mesma forma que boa parte também está em renda variável e assim seguirá. Eventuais oportunidades de aumento ou redução de uma coisa e de outra são pontuais. Não tem nada a ver com virar a mão como você sugere.

Então eu digo: se você não tem renda fixa, é um bom momento para começar a ter também. Muito diferente desse maniqueísmo de vender tudo e correr para as montanhas (ou para os títulos públicos, no caso).

2. se agora, que boa parte dos valuations voltaram a ficar atrativos, se justo agora você quer sair da bolsa, então você não entendeu o jogo. 

Provavelmente você se entusiasma e se encoraja quando os ativos estão subindo (ou seja, ficando cada vez mais caros; com margens de segurança cada vez mais estreitas) e se amedronta quando eles estão caindo (com valuations cada vez mais amigáveis; com amplas margens de segurança).

E talvez a melhor maneira de entender que não é assim que funciona seja, de fato, sentir na pele: só se conhece o gosto do sal provando-o. Talvez não adiante eu insistir que investir é contra-intuitivo; que é justamente na hora que você sente esse desconforto que está sentindo que é hora de tomar o risco. Talvez nada que eu possa dizer sirva para que você de fato incorpore essa lição.

3. Se você está com medo de eleição, eu nem sei por onde começar.

3.1. Se você tem medo do próximo ciclo político, o melhor a fazer é emprestar dinheiro para o governo ou se associar a empresas privadas?

Eu juro que não consigo entender a cabeça de quem, com medo do futuro político do país, resolver ser credor do Tesouro Nacional. Ou uma coisa, ou outra.

3.2. O Brasil é um país instável. Nossa história econômica é uma bagunça – arrisco-me a dizer que, perto do que já foi, hoje é uma maravilha. E independentemente disso sempre existiram empresas que prosperaram; que navegaram entre períodos de bonança e tempestades gerando valor.

Você acha mesmo que faz sentido mudar radicalmente sua estratégia de investimento de quatro em quatro anos? Ou, tanto pior, a cada turbulência que Brasília nos propicia?

Enfim. Se mesmo diante disso tudo você quer sair da bolsa e migrar para a “segurança” da renda fixa (haha), be my guest.

Só saiba que provavelmente eu estarei na outra ponta comprando, tá bom? 

Não que eu esteja confortável com o cenário atual. Não estou. Mas já aprendi que o conforto não é pré-requisito.

Feitas essas considerações, onde tem mais jogo e menos jogo? Meus 2 cents:

  • Crescimento ficou mais caro. Teses altamente dependentes de altas taxas de crescimento futuro (isto é, com maiores riscos de execução) devem ser alvo de menos benevolência por parte do mercado. Ruim para quem gosta de investir com base em emojis de foguetinhos em redes sociais.
  • Foco no bom e barato. Empresas de setores mais tradicionais, cujo valor se encontra num horizonte não tão longínquo e que vinham sendo extremamente negligenciadas pelo mercado podem voltar para o centro do palco. De quebra, há quem também se beneficie da alta de juros (sim, estou pensando nos bancos, seguradoras e tutti quanti).
  • Alavanca ou marreta? Vale um pouquinho de cuidado com empresas com alta alavancagem financeira. Em alguns casos, há bastante geração de caixa para suportar juros (cada vez mais altos) e amortizações bem distribuídas no tempo. Mas quem tiver que renegociar vencimentos de dívida num futuro próximo encontrará um ambiente relativamente hostil. Olho aberto.

Mas mais do que tudo, não perca de vista que esse é um jogo longo; que momentos de turbulência vêm e vão; e que os resultados vêm não somente da boa escolha no que se investe (e, em um mercado no qual nem tudo sobe, finalmente vamos ver quem é quem…), mas também de quanto tempo você permanece no jogo.

Um abraço e até a próxima. 


*Ricardo Schweitzer é analista CNPI, consultor CVM e investidor profissional. 

Twitter: @_rschweitzer, Instagram: @ricardoschweitzer

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