Macro versus micro | Por Ricardo Schweitzer

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Artigo de Ricardo Schweitzer

Ruídos de curto prazo desafiam fundamentos e demandam atenção. Por Ricardo Schweitzer*

Investir no Brasil está longe de ser tarefa fácil. Nunca foi. E, provavelmente, nunca será.

Os últimos dois anos foram de enormes desafios operacionais para as empresas, em razão dos reflexos da pandemia. Em maior ou menor medida, praticamente todos os ramos de negócio sentiram impactos. E vou além: não é pequeno o número de empresas que promoveram verdadeiras revoluções dentro de casa para se adaptar à nova conjuntura.

Já se vão muitos anos conversando com executivos. Depois de algum tempo, dá pra perceber até no tom do discurso quando a coisa está difícil. E digo com convicção: para muitas empresas, a coisa ficou russa em certos momentos dessa caminhada recente.

Mas eis que, ao longo de 2021, o tom melhorou substancialmente. Por um lado, a superação das fases mais restritivas da pandemia permitiu a retomada de muitas frentes de negócio. Por outro, as lições de casa levadas à frente pelas organizações – necessárias para torná-las mais leves e melhor enfrentar a fase conturbada pela qual passamos – se traduziu, no momento da retomada, em geração adicional de valor.

E isso também vem transparecendo no discurso. Ou explicitamente, ou nas entrelinhas; em intensidades que variam de setor para setor.

Acabamos de entrar na temporada de resultados do 3T21, e sinto-me confortável em dizer que grande parte das empresas que acompanho trará resultados bons. E quando digo bons não quero dizer, simplesmente, melhores que os do 3T20: a base de comparação é fraca. Em alguns casos, estamos falando de números realmente BONS. E com boas perspectivas para o futuro próximo.

Como analista, sempre privilegiei o chamado bottom-up ao top-down. Ou seja: o processo de análise é “de baixo para cima”, focando nas iniciativas internas das empresas, nas dinâmicas de seus mercados específicos de atuação, etc. A essa abordagem se opõe a turma que olha primeiro para o macro: a macrotendência assim ou assado beneficia ou prejudica este ou aquele setor e dita essa ou aquela alocação.

Veja bem: não são coisas excludentes; são faces opostas da mesma moeda. O micro é o barco; o macro é a correnteza, que ora favorece, ora oferece resistência – mas, a rigor, só deveria mudar definitivamente o rumo de quem não tem propulsão própria; quem se vê à deriva.

E a maioria das empresas não está à deriva. Há um rumo (às vezes errado, é verdade) e há propulsão. Portanto, as correntes e marés facilitam ou dificultam a viagem, mas não mudam radicalmente o curso.

Mas o Brasil é pródigo em tempestades. E aí haja rebentação.

As últimas semanas foram marcadas por aumento substancial da aversão a risco por conta da intrincada relação entre política e economia. De um lado, a inflação chamando uma atuação cada vez mais intensa do BC; de outro, diferentes atores políticos tentando acomodar interesses (não raro conflitantes entre si) na política fiscal.

O resultado está aí: juros curtos e longos em forte tendência de alta, câmbio nas alturas e bolsa apanhando. 

A turma do top-down leva a melhor nessas horas, porque para baixo, no curto prazo, o mercado trata todo mundo igual. A questão é como cada embarcação se vê depois que a tempestade passa.

Haverá aquelas que simplesmente atravessarão essa fase turbulenta sem grandes danos nem atrasos significativos. Outras, por sua vez, terão alongado suas viagens buscando zonas menos agitadas para cruzar. Algumas julgarão mais prudente mudar o porto de destino. Não me parece, por ora, fazer sentido pensar que alguém ficará pelo caminho.

Mas esse escrutínio só será feito pelo mercado quando a tempestade passar. 

Se você está inquieto com o desempenho recente de sua carteira de ações, o melhor conselho que posso lhe dar é: gaste menos tempo acompanhando cotação e noticiário político e mais tempo acompanhando o que as empresas nas quais você investe estão fazendo.

A não ser que o Brasil degringole de vez, é altamente provável que os tais “prêmios de risco” – que é o nome bonito que a turma financista dá para a incerteza que afeta os preços nessas horas – não fiquem onde estão neste momento. Devem voltar a recuar. E, com isso, os ativos voltarão a apreciar.

Mas isso nem de longe significa que não é hora de fazer nada. Pelo contrário: o momento é propício para reavaliações.

Se todo mundo apanha junto, talvez haja coisa boa ficando relativamente mais barata que coisa ruim. Preços relativos convidativos podem ensejar trocas.

Também vale a pena ter em mente que tende a sofrer mais quem promete mais: ao que tudo indica, caminhamos para um mundo de juros reais mais altos. Se grande parte do valor da sua tese está no futuro distante (aquelas histórias de crescimento faraônico…), o impacto no valuation tende a ser maior do que em empresas cujos resultados são mais tangíveis a curto e médio prazo.

E por fim: se você também tem renda fixa na sua carteira, talvez seja hora de começar a repensar exposições em prefixados e indexados, que estão começando a oferecer prêmios interessantes. E se você não tem, talvez devesse começar a pensar em ter – tanto porque é bom para o portfólio quanto porque parece ter oportunidade de ganho ali também.

Mas mais do que tudo, o momento é propício para reavaliar sua tolerância ao risco. É fácil se autointitular investidor arrojado com o mercado para cima. É na hora que o avião ameaça cair que a gente descobre quem realmente é ateu. Se você está dormindo mal, é possível que esteja tomando risco demais.

Nada do que estamos vivendo é novo. Já aconteceu e, garanto, acontecerá de novo incontáveis vezes. Então foque no que interessa: menos ruído, mais sinal.


*Ricardo Schweitzer é analista CNPI, consultor CVM e investidor profissional. 

Twitter: @_rschweitzer, Instagram: @ricardoschweitzer

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