Lições do jornaleiro | Por Ricardo Schweitzer

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Artigo de Ricardo Schweitzer

“Em um mundo em constante mudança, a demanda por soluções milagrosas continua permanente”. Por Ricardo Schweitzer*

Dias atrás passei por uma banca de revistas aqui perto de casa. Lá encontrei um enorme cartaz: passa-se o ponto.

Em um passado não tão distante assim, bancas de jornais e revistas eram tidas como bons negócios: a clientela cativa do entorno e/ou do fluxo do local e a periodicidade das publicações se traduziam em bom giro e alta recorrência de faturamento.

Desnecessário pontuar que o mundo mudou – e não foi pouco. Talvez você mesmo mal consiga se lembrar da última vez que parou em uma banca. Ou, pelo menos, quando fez isso especificamente para comprar um jornal ou uma revista.

Hoje em dia, as bancas de revistas mais parecem lojinhas de conveniência: você encontra todo tipo de snack, uma ampla variedade de fones de ouvido, guarda-chuvas e outras quinquilharias com boa chance de compra por transeuntes. Diante das mudanças provocadas pela Internet no mercado editorial, empreendedores desse segmento se viram forçados a mudar radicalmente.

Faço aqui uma brevíssima digressão: muito cuidado com a tendência a perpetuar o cenário atual. Aquilo que parece um excelente negócio hoje pode ser um péssimo negócio amanhã, a depender do rumo que as coisas tomem. E aí o que mais vale é a capacidade de adaptação das empresas à nova realidade. Vale para a vida e vale para seus investimentos.

Mas voltando à banca. Em uma de minhas últimas incursões nessa relíquia empresarial percebi que, enquanto títulos tradicionais são cada vez mais escassos, existem determinadas categorias que seguem de vento em popa: revistinhas de fofoca, de astrologia, receitas fáceis… e dietas.

As capas das revistas de dieta rivalizam com os periódicos de fofocas de famosos no quesito manchetes sensacionalistas

Emagreça 45kg em 10 minutos com a dieta do figo-da-índia; seque a barriga instantaneamente com o chá de alcachofra de Jerusalém; extrato de baobá faz você parecer 20 anos mais jovem. E por aí vai.

Sabe por quê?

PORQUE VENDE!

Em maior ou menor medida, todo mundo sabe no que consistem hábitos de vida saudáveis. Talvez não seja universal o conhecimento específico sobre carboidratos, proteínas, gorduras, fibras… mas todo mundo sabe que comer mais brócolis e menos batata frita é uma boa ideia. Todo mundo sabe que fazer atividade física traz mais benefícios do que passar o domingo se recuperando da comilança de sábado.

Mas sacumé: esse negócio de vida saudável dá trabalho. Não tem nada aí que me gere resultados mais rápido não?

Essas publicações atendem a um nicho de mercado que sempre existiu e sempre existirá: elas prometem atalhos fáceis (dieta milagrosa) para atingir fins amplamente desejados (saúde, boa forma), mas que envolvem paciência, disciplina, determinação.

Acho que nem preciso dizer que nem a editora da revista, nem o dono da banca estão preocupados se aquilo funciona mesmo, não é verdade?

E se eu dissesse que, com seus investimentos, acontece rigorosamente a mesma coisa?

A receita tradicional é fácil. Trabalhe, gaste menos do que ganha, invista o que sobra em empresas de alta qualidade compradas a preços adequados, receba proventos, reinvista, faça novos aportes, receba mais proventos, reinvista, aporte outra vez…

Qualquer semelhança com um programa de alimentação saudável e atividade física não é mera coincidência.

Mas asseguro para você que funciona. Mas também asseguro que, para a maioria das pessoas, é um processo chato pra caramba – da mesmíssima maneira que comer brócolis e fazer academia 6 vezes por semana apetece a poucos.

E é precisamente por isso que, da mesma forma que existe o super detox que vai secar sua barriga, há a estratégia secreta dos milionários para multiplicar seu capital em questão de dias

“Aproveite enquanto os poderosos não conseguem tirar esse conteúdo do ar!”

Aquela velha história: todo problema complexo tem uma solução simples – e, na maioria das vezes, equivocada. Mas nunca faltarão os dispostos a apostar nos atalhos.

Era essa a principal mensagem que eu queria passar hoje: cuidado com as promessas de retornos fáceis. Elas existem pura e simplesmente porque sempre existiram (e sempre existirão) pessoas dispostas a apostar em resultados sem esforços.

Mas quero aproveitar o gancho da banca de revistas para trazer mais uma reflexão: da mesma maneira que o jornaleiro se reinventou e transformou seu cubículo em uma loja de conveniências, atente para o fato de o ecossistema do mercado de capitais estar mudando também.

Não muitos anos atrás, banco fazia dinheiro com tarifa e spread de crédito. Corretora fazia dinheiro com corretagem. Research fazia dinheiro vendendo assinatura de relatório. E por aí vai. 

Bancos acordaram para outras potenciais frentes de negócio a partir do canal de relacionamento que estabelecem com seus clientes. Corretoras identificaram potenciais de ganho a partir do fluxo financeiro gerado por seus usuários. Casas de research caminham para a oferta direta de serviços financeiros e/ou se integram a ecossistemas de instituições maiores.

Não faço, por ora, juízo de valor a respeito desses novos tempos que despontam no horizonte. Mas julgo conveniente alertar que as mudanças de paradigma trazem consigo mudanças nos potenciais conflitos de interesse implícitos nas ofertas de produtos e serviços.

E a baixa sensibilidade do cliente médio a esses potenciais conflitos de interesse facilita bastante o processo.

Conselho? Procure entender como as empresas fazem dinheiro tendo você como cliente. E avalie se tal arranjo efetivamente faz sentido para você.

(E sim, eu sei: esse é daqueles conselhos que pouquíssima gente vai seguir…)

Até a próxima!


*Ricardo Schweitzer é analista CNPI, consultor CVM e investidor profissional. 

Twitter: @_rschweitzer, Instagram: @ricardoschweitzer

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